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Leitura Final

A tradução não é trocar palavras entre línguas, é cortar e acrescentar, na língua de chegada, até criar uma leitura final de excelência.

Leitura Final

A tradução não é trocar palavras entre línguas, é cortar e acrescentar, na língua de chegada, até criar uma leitura final de excelência.

02.12.25

O Confronto de Hart & Mercy - The Undertaking of Hart and Mercy


Maria Antunes

Dir-se-ia que, num universo fantástico («os selvagens e mágicos territórios de Tanria», «a magia, os semideuses») se pode escrever o que bem se entender e, já agora, traduzir também.

Ora, não é assim. Acredito piamente que os novos adultos e os jovens adultos portugueses não queiram saber da vida militar mas, se quiserem, têm aqui um «marechal» que não lembra ao demo:

«Hart é um marechal incumbido de patrulhar...»

Não é assim que se traduz e se localiza em português a função de «marshal» norte-americano, e o dicionário da Infopédia tem culpas no cartório.

É uma pena que o título não tenha sido bem aproveitado (The Undertaking of Hart and Mercy). Em francês, ficou La ballade funèbre de Hart & Mercy.

O Confronto de Hart e Mercy.png

30.11.25

Etm.


Maria Antunes

Etm.

(abr.) Abreviatura em Latim de «et merda».

Tal como «etc.» (et caetera, et cetera ou etcétera – e outras coisas mais), «i.e.» (id est, isto é) e «e.g.» (exempli gratia, por exemplo).

Podemos empregar etm. para dizer «e merdas».

etm.jpg

30.11.25

Novo Guia Ilustrado das Algas da Costa Portuguesa / Illustrated Guide to the Main Macroalgae of the Portuguese Continental Atlantic Coast


Maria Antunes

Diz-nos a Wilder, cujo artigo também salienta a importância da ciência cidadã.
Ora, só falta traduzir o dito guia para português, não é?
Afinal, somos uma língua de cultura, e os cidadãos cientistas são portugueses.

Repare-se em Portuguese Continental Atlantic Coast – senhores, somos banhados pelo Atlântico em todo o litoral.

algas 1.png

algas 2.pngalgas 3.png

30.11.25

Nem-nem / NEET


Maria Antunes

A Fundação Cidade de Lisboa lembrou-me dos jovens nem-nem (não trabalham, não estudam nem seguem formação), em inglês NEET (not in education, employment or training).
No IATE, admite-se «jovens nem-nem». As outras línguas latinas interessam-me sempre, por exemplo, em francês, (ainda) não resolveram sintetizar, em italiano, diz-se «né-né» e, em espanhol, «nini».
Aliás, em espanhol, também se ironiza: «joven ninini, ni estudia, ni trabaja, ni lo intenta».
Cara Fundação, este guia tem de ser traduzido em português, não é? (ligação nos comentários para esse recurso, em inglês de ortografia americana – porquê?)

Fundação Cidade de Lisboa

neet 1.png

24.11.25

A pior tradução que já li – parte I


Maria Antunes

E li tudo, com um fascínio mórbido. Os Tambores de Outono, de Diana Gabaldon, traduzido por uma entidade chamada Bookbug.

Sou fã da saga Outlander, e a autora é bastante activa nas redes, gosta de interagir com os leitores, e interessa-se pelas edições internacionais, chegando até a trabalhar com Barbara Schnell, a tradutora para a língua alemã. Diana já pediu opinião sobre as (outras) traduções – nas várias línguas dos leitores – e, nos comentários, os leitores portugueses queixaram-se, todos. Aliás, tais reclamações constam das críticas nas plataformas Wook («Excelente livro, história viciante mas com uma tradução deficiente e cheia de erros por corrigir. Segunda edição»), Bertrand, Fnac, Good Reads, até se queixam de que as traduções estão em português do Brasil. Por outro lado, não esquecer que, em blogues PT, as «críticas» são de quem recebeu os livros grátis das editoras, logo, não vai dizer mal, pois não?

Destes muitos exemplos, há muitos em que nem consigo tecer comentários.

PRIMEIRA PARTE

- «Ó Maravilhoso Novo Mundo» – «O Brave New World» é o Admirável Mundo Novo da obra de Aldous Huxley, a expressão não precisa de ser reinventada nem retraduzida, está consagrada.

- O cheiro do pão quente e da gordura de porco frito das bancas dos vendedores de comida abafava mais o forte odor almiscarado dos sargaços apodrecidos do pântano, só ligeiramente aliviado por uma lufada de brisa marinha vinda do porto.

Não é o porco que é frito, é a BANHA!; «To lay heavy» não é «abafar mais» de certeza; «Musk» é cheiro forte, não tem de ser almíscar; «salt-breeze» é MARESIA!

The smell of hot bread and frying pig fat from the food vendors’ stalls lay heavy over a musk of rotting seagrass from the marsh, only slightly relieved by a whiff of salt-breeze from the harbor.

- O primeiro homem era baixo e idoso, arrasado e desrespeitado, um andrajoso que se arrastava e embrenhava…

The first man was small and elderly, ragged and disreputable, a shambling wreck who lurched and staggered…

- O capitão da guarda tinha o rosto avermelhado pelo sol e pela fúria… - The captain of the guard glowed crimson… - Aqui interessa que raramente se fala na «cara» de alguém, é sempre o rosto, no que é um claríssimo sinal de PTbr.

- Cadafalso – uma carroça atrelada a uma mula… - the gallows—a mule-drawn cart…

LOGO a seguir:

- Não tens de ver isto, Sassenach (…) Vai para a carroça. - “Ye dinna need to watch it, Sassenach,” (…) “Go back to the wagon.”

LINDO, não é? A mesma carroça? Que falta de sensibilidade!

(continua)

Saga-Outlander-Livro-4-Os-Tambores-de-Outono.jpg

07.11.25

Crime no Expresso do Natal


Maria Antunes

Crime no Expresso de Natal - Guerra e Paz.png

Foi a leitura mais difícil que já fiz, nos últimos tempos porque, infelizmente, não é português de Portugal, escrito por mão humana. Parece saído de um qualquer programa de tradução automática, daqueles que só percebem português do Brasil. Sabemos que estes programas traduzem ipsis verbis, incluindo pontuação e a falta flagrante dela. Não é alta literatura, nem se engana ninguém, mas duvido que a autora tenha escrito assim tão mal.

Passo a dar exemplos, infelizmente, não exaustivos.

p. 153

«Roz assentiu com a cabeça.»

«Roz anuiu com a cabeça.»

«Esperava que Oli (…) segurança.» – Não há nesta frase uma única vírgula, e é apenas um exemplo, entre milhares.

«— Mudança de planos — disse Roz. — Vou entrevistá-lo primeiro a ele.» – É assim que falamos, em PT?

p. 158

«Os olhos tinham mais bagagem do que Grant e Meg juntos.» – ?

«Mas não estava. Lamento muito a sua perda.» – É assim que falamos, em PT?

p. 181

«Estavam todos presentes (…) mas não havia nenhuma sensação de que o grupo estivesse junto de alguma maneira.» – ?

«A respiração condensava-se nas janelas frias e deixava a paisagem exterior com um aspecto ainda mais distante.» – A respiração faz isto tudo?

«… ou estavam numa espécie de limbo do qual nunca iriam conseguir sair.» – Três verbos quando, em PT de lei, se diz «conseguiriam sair.»

«E aconteceu outra coisa que vem tornar as coisas mais complicadas.» – Em PT de lei, «vem complicar as coisas».

«Se decidíssemos escalá-las, teríamos de saber sofrer as consequências.» – Em PT de lei, arcamos com as consequências.

«Até que o silêncio se quebrou como gelo por um machado.» – ?

P. 201

«Não me digas? — disse Roz.» – Até este corrector me assinala esta pontuação errada.

p. 203

«A temperatura (…) já se tinha tornado um pouco mais elevada…» – Os tradutores automáticos não sabem o que é pretérito mais-que-perfeito, logo, nunca escrevem «tornara».

«Lembrou-se de que as pessoas (…) de um cobertor ou de pele.» – Qual pele? Humana? De animal? Sim, em PT, «fur» é igualmente «pele», mas deve especificar-se.

«Tinha um tubo fixado com fita-cola…» – Fita-cola num hospital, hem?

«Heather nascera com o cordão umbilical enrolado em volta do pescoço.» – Ninguém fala assim em PTpt.

«Roz soubera então, como sabia agora, que era necessário. Literalmente vital.» – Roz percebeu assim que o oxigénio é necessário / vital?

«— Ellie? O que está a acontecer?» – igualzinho a What’s happening?, quando ninguém fala assim em PT.

p. 217

«— Recebi informação (…) saber se vos posso fazer algumas perguntas.» – As personagens não se tratam na segunda pessoa do plural, logo, não se deve escrever este pronome.

«… tenho acesso a uma rede incomparável de informantes e informações.» – PTbr.

«A resposta pareceu calar Sally.» – Em EN, personificam tudo, até respostas, em PT, não.

p. 226

«— Não deveria caber-lhe a si esse papel.» – Referem-se a uma personagem fora da conversa, o pronome não deve ser este, mas sim «a ela.»

«— Eu consigo perceber (…) pescoço. — Embora levou a mão…» – O nome da personagem é «Ember» mas, como já se viu, isto não foi revisto.

«— Ele estava a agarrar-me a cintura…» – Então não é «pela cintura»?

p. 228

«Roz estava a agarrar os joelhos, com os nós dos dedos a tremer.» – Os nós dos dedos a tremer? Como?

«Provavelmente já alguém lhe tinha dito que isso.» – ?

«— A questão (…) pegou na não de Roz.» – Gralha

«A voz de Roz era muito baixa.» – Confusão entre os verbos ser e estar.

«Roz parecia estar a inspirar ar em pequenas golfadas.» – Que tristeza de frase!

«Ao fim de cinco minutos ou mais, disse:» – É assim, no original? Que unidade temporal será esta?

p. 234

«Depois de se assegurar de que Ember estava bem abastecida de café e snacks.» – Que tristeza de frase!

«A penúltima visita que Roz fez foi à família de Phil e Sally.» – Para quê esta cacofonia de efes?

«— Snap! (…) Roz vislumbrou o rosto ressonante de Sally, o cabelo desalinha a cobrir-lhe a boca.» – Reparem, não interessa se, em EN, tivermos realmente a cara de alguém a ressonar, isto não pode ficar assim em PT.Gralha

«Esteve bem quando conseguiu não deixar que nenhuma de vocês morresse na montanha.» – Quem é que esteve bem? «Conseguiu não deixar» ?

p. 248

«A única coisa (…) era uma fotografia da pequena neta…» – Então e os diminutivos tão portugueses? A netinha! Aliás, se houver um diminutivo em toda esta tradução, eu como o meu chapéu!

«Roz estava convicta de que o gato tinha pousado a pata na malha para a saudar.» – Qual malha?

Mas terminemos com chave de ouro:

«Liv levou o coração ao peito…» – ?

«O coração de Roz também estava de novo nos trilhos.» – Vamos mudar o nome dos transportes metropolitanos da Grande Lisboa para Trilhos, em vez de Carris, sim?

17.09.25

Fanal


Maria Antunes

Por causa deste artigo da Wilder, vejo que a Infopédia NÃO dá uma definição dessa acepção tão nossa do vocábulo.

«O Núcleo Regional da Quercus da Madeira está profundamente preocupado com a situação da Zona de Repouso e Silêncio do Fanal. Pede o fim do pastoreio e um controlo da visitação.»

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Fanal. Foto: Paulo SP/WikiCommons

29.05.25

Pools of something / Nunca são piscinas


Maria Antunes

Nunca são piscinas, está bem?

- "Ahead of them, a couple stood outside a bar in a 𝐩𝐨𝐨𝐥 of lamplight, performing a timeless two-person drama."

«À sua frente, um casal estava do lado de fora de um bar numa 𝐩𝐢𝐬𝐜𝐢𝐧𝐚 de candeeiros, executando um drama intemporal a duas pessoas.»

- "Eyes like endless 𝐩𝐨𝐨𝐥𝐬 of liquid silver."

«Olhos como 𝐩𝐢𝐬𝐜𝐢𝐧𝐚𝐬 infindas de prata liquida.»

- "Desire filling his eyes like endless 𝐩𝐨𝐨𝐥𝐬."

«O desejo enchendo-lhe os olhos como 𝐩𝐢𝐬𝐜𝐢𝐧𝐚𝐬 intermináveis.»

- "Glistening doe eyes, like 𝐩𝐨𝐨𝐥𝐬 of melancholy."

«Olhos de cordeiro brilhantes, como 𝐩𝐢𝐬𝐜𝐢𝐧𝐚𝐬 de melancolia.»

E tanto mais a dizer, que aflição!

Poças.jpg

15.03.25

A «dificuldade» de pink leather kid gloves; o malfadado Quão? em suma, tradução do mais automático que há.


Maria Antunes

— Sha-la-la-la! Não te vou ouvir!

Ela pressionou os ouvidos com as palmas das mãos e saltou à sua frente pela rua. Um carro a tocar uma música pop jubilosa. (…) e com cautela, ela tirou as mãos da cabeça. Estava a usar luvas de criança de cabedal cor-de-rosa. As suas bochechas também estavam cor-de-rosa.

"Sha-la-la! I shan't listen to you!"

She pressed her palms to her ears and sprinted ahead of him up the street. A car blasting a jubilant pop song shot by. (…) and tentatively, she released her hands from her head. She was wearing pink leather kid gloves. Her cheeks were pink, too.

«Sha-la-la-la!» não é português. Este carro aparece assim porquê? Porque PASSOU = shot by.

She was wearing - Estava a usar. É a primeira «tradução» do Google Translate e quejandos, realmente.

Tinha luvas calçadas! E pink leather kid gloves NÃO são luvas de criança de cabedal cor-de-rosa, SÃO luvas de pelica, até o dicionário ajuda nisso!

 

— Sou mais velho do que tu. A minha geração teve de memorizar estas coisas na escola.

— Quão velho?

— Mais velho. Qual é o teu nome?

''I'm older than you. My generation had to memorize these things in school."

"How old?"

"Older. What's your name?"

Valha-me São Jerónimo e os santinhos todos!

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