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Foi a leitura mais difícil que já fiz, nos últimos tempos porque, infelizmente, não é português de Portugal, escrito por mão humana. Parece saído de um qualquer programa de tradução automática, daqueles que só percebem português do Brasil. Sabemos que estes programas traduzem ipsis verbis, incluindo pontuação e a falta flagrante dela. Não é alta literatura, nem se engana ninguém, mas duvido que a autora tenha escrito assim tão mal.
Passo a dar exemplos, infelizmente, não exaustivos.
p. 153
«Roz assentiu com a cabeça.»
«Roz anuiu com a cabeça.»
«Esperava que Oli (…) segurança.» – Não há nesta frase uma única vírgula, e é apenas um exemplo, entre milhares.
«— Mudança de planos — disse Roz. — Vou entrevistá-lo primeiro a ele.» – É assim que falamos, em PT?
p. 158
«Os olhos tinham mais bagagem do que Grant e Meg juntos.» – ?
«Mas não estava. Lamento muito a sua perda.» – É assim que falamos, em PT?
p. 181
«Estavam todos presentes (…) mas não havia nenhuma sensação de que o grupo estivesse junto de alguma maneira.» – ?
«A respiração condensava-se nas janelas frias e deixava a paisagem exterior com um aspecto ainda mais distante.» – A respiração faz isto tudo?
«… ou estavam numa espécie de limbo do qual nunca iriam conseguir sair.» – Três verbos quando, em PT de lei, se diz «conseguiriam sair.»
«E aconteceu outra coisa que vem tornar as coisas mais complicadas.» – Em PT de lei, «vem complicar as coisas».
«Se decidíssemos escalá-las, teríamos de saber sofrer as consequências.» – Em PT de lei, arcamos com as consequências.
«Até que o silêncio se quebrou como gelo por um machado.» – ?
P. 201
«Não me digas? — disse Roz.» – Até este corrector me assinala esta pontuação errada.
p. 203
«A temperatura (…) já se tinha tornado um pouco mais elevada…» – Os tradutores automáticos não sabem o que é pretérito mais-que-perfeito, logo, nunca escrevem «tornara».
«Lembrou-se de que as pessoas (…) de um cobertor ou de pele.» – Qual pele? Humana? De animal? Sim, em PT, «fur» é igualmente «pele», mas deve especificar-se.
«Tinha um tubo fixado com fita-cola…» – Fita-cola num hospital, hem?
«Heather nascera com o cordão umbilical enrolado em volta do pescoço.» – Ninguém fala assim em PTpt.
«Roz soubera então, como sabia agora, que era necessário. Literalmente vital.» – Roz percebeu assim que o oxigénio é necessário / vital?
«— Ellie? O que está a acontecer?» – igualzinho a What’s happening?, quando ninguém fala assim em PT.
p. 217
«— Recebi informação (…) saber se vos posso fazer algumas perguntas.» – As personagens não se tratam na segunda pessoa do plural, logo, não se deve escrever este pronome.
«… tenho acesso a uma rede incomparável de informantes e informações.» – PTbr.
«A resposta pareceu calar Sally.» – Em EN, personificam tudo, até respostas, em PT, não.
p. 226
«— Não deveria caber-lhe a si esse papel.» – Referem-se a uma personagem fora da conversa, o pronome não deve ser este, mas sim «a ela.»
«— Eu consigo perceber (…) pescoço. — Embora levou a mão…» – O nome da personagem é «Ember» mas, como já se viu, isto não foi revisto.
«— Ele estava a agarrar-me a cintura…» – Então não é «pela cintura»?
p. 228
«Roz estava a agarrar os joelhos, com os nós dos dedos a tremer.» – Os nós dos dedos a tremer? Como?
«Provavelmente já alguém lhe tinha dito que isso.» – ?
«— A questão (…) pegou na não de Roz.» – Gralha
«A voz de Roz era muito baixa.» – Confusão entre os verbos ser e estar.
«Roz parecia estar a inspirar ar em pequenas golfadas.» – Que tristeza de frase!
«Ao fim de cinco minutos ou mais, disse:» – É assim, no original? Que unidade temporal será esta?
p. 234
«Depois de se assegurar de que Ember estava bem abastecida de café e snacks.» – Que tristeza de frase!
«A penúltima visita que Roz fez foi à família de Phil e Sally.» – Para quê esta cacofonia de efes?
«— Snap! (…) Roz vislumbrou o rosto ressonante de Sally, o cabelo desalinha a cobrir-lhe a boca.» – Reparem, não interessa se, em EN, tivermos realmente a cara de alguém a ressonar, isto não pode ficar assim em PT.Gralha
«Esteve bem quando conseguiu não deixar que nenhuma de vocês morresse na montanha.» – Quem é que esteve bem? «Conseguiu não deixar» ?
p. 248
«A única coisa (…) era uma fotografia da pequena neta…» – Então e os diminutivos tão portugueses? A netinha! Aliás, se houver um diminutivo em toda esta tradução, eu como o meu chapéu!
«Roz estava convicta de que o gato tinha pousado a pata na malha para a saudar.» – Qual malha?
Mas terminemos com chave de ouro:
«Liv levou o coração ao peito…» – ?
«O coração de Roz também estava de novo nos trilhos.» – Vamos mudar o nome dos transportes metropolitanos da Grande Lisboa para Trilhos, em vez de Carris, sim?